terça-feira, 22 de abril de 2008

Consummatum Est

Auto-Retrato Com os Objectos da Vaidade de David Baily

A explosão de crédito mal-parado relativa ao consumo mais não é do que o que se verifica nas épocas de decadência, a utilização do dinheiro que se não tem para a ostentação de bens não-duradouros que dêem a ilusão de um estatuto. Quando a Nobreza deixou de ter como desígnio principal o serviço militar do Povo e do Rei também foi criado o seu ramal dito de Corte, em que a pretensão de acompanhar minimamente o fausto de meia dúzia de famílias que o podiam pagar levou muito fidalgo pobretão a contrair empréstimos junto da agiotagem para manter o nível das suas casacas, comilices e perucas.
Da mesma forma com a Sociedade Burguesa: o recurso ao crédito, antes vocacionado para a expansão dos negócios, mais tarde estendido à aquisição de lares próprios, sempre com o fito do progresso familiar, descamba agora num rodopio de obtenção de dinheiro fácil, aquele que não se sabe como poderá ser pago, para saciar a sede de uma imagem melhor, através de exibições de compras evaporáveis em prazo mais do que curto.
É a passada larga para o desastre.
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6 comentários:

Once In a While disse...

we should be free to act as if our constructions are true .. defendia Vaihinger .. e de facto, neste salto de balão de oxigénio em balão de oxigénio muitos acreditam conseguir viver e assim usufruir. Muitos outros acredito que o façam por necessidade.

cristina ribeiro disse...

Como diz Once, muitos serão os casos de necessidade, mas mesmo dentro desses, muitos haverá- não todos- em que é o resultado, inevitável, de se não ter seguido a sabedoria popular que manda não dar o passo maior do que a perna.Deslumbramentos...
Beijo

fugidia disse...

A situação é muito complicada, cada vez mais complicada, com as pessoas a contrairem empréstimos para pagarem empréstimos...
E era bom que as financeiras se preocupassem efectivamente com os riscos: coisa que não tem sucedido porque eram as primeiras a não se "importarem" com os incumprimentos, face aos valores absurdamente altos dos juros de mora...
Nesta "história" não há inocentes: nem dum lado, nem do outro.

O Réprobo disse...

Querida Once,
claro que desde as teorizações da Utilidade Marginal o conceito de necessidade se tornou muito menos rígido do que a observação à vista desarmada faria perceber.
Num plano que extravase do pão para a boca não foi Oscar Wilde que disse "nada há de mais essencial do que o supérfluo"?
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
penso que os mais carenciados de todos tendem a nem sequer poder pensar em recorrer ao crédito, quer por não lhos ser dado, quer por nem terem noções suficientes para encarar essa via.
É evidente que, mas mais das vezes, quem vai pedir dinheiro fá-lo por não o ter. Mas o que me parece é estar a generalizar-se uma canalização do que era um meio de investimento ou de aquisição de suportes perenes para um estoiro em orgia de bens perecíveis.
Sem desígnio supra-individual, referente à coesão comunitária ou familiar, visando apenas a imagem do indivíduo no duvidoso prestígio de poder torrar nisto ou naquilo.
Bjinho

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
é precisamente essa sensatez, para não dizer honorabilidade, perdida que me incomoda. Um pouco na sequência da repulsa da Luísa, no outro dia, perante a falta de rigor nas contas de uma Figura Histórica...
Beijo