terça-feira, 29 de abril de 2008

Laços de Sangue

Loth e as Suas Filhas de Giovanni BarbieriEmbora o incesto consentido entre irmãos passe por ser uma glória literária e alguns extremistas libertários apostrofem o mesmo comportamento, mas em geral, como o último tabu a derrubar, é no sexo entre Pais e Filhos que reside a reserva de repugnância das mentes menos subversoras, alheias a vanguardismos assim justamente amaldiçoados. Porque, apesar de ainda na década de 1950 haver uma tribo oceânica que não ligava a sexualidade à concepção, a generalidade das grandes culturas tem o sexo como origem da relação com os filhos, tornando-o impróprio para a continuidade dela. A proximidade paternal quer-se uma espécie de porta-aviões no lançamento para os perigos e alvos da vida, não uma proliferação concorrente e aprisionante deles. Por tudo isso é tão facilmente evitado o acto, mesmo nos muitos casos em que jovens Senhoras constroem a imagem do Homem Ideal com base no carácter do Pai que conheceram e estimaram. É muito mais frequente do que o que ocorre com os géneros trocados, sendo essa patente enformação a causa do sucesso muito maior da teorização do Complexo de Édipo, já que não remetia para atracções tão assumidas.
Neste episódio, porém, não há que teorizar. Quando o horror é potenciado pela coacção, o devido só pode ser castrar e matar. Má nada!

20 comentários:

Once In a While disse...

Como sempre uma análise cuidada caro Amigo.
Jean de La Bruyére, que já citei lá pelas minhas linhas, disse: “ dizer de uma coisa, modestamente, que é boa ou que é má, e as razões porque assim é, requer bom senso e expressão” .. a citação continua mas é este o fragmento que lhe “dedico” porque é assim que invariavelmente o leio. Com bom senso. E expressão.

E mais uma vez aqui assino a conclusão.
Quando o horror impera .. o humano desaparece e com ele o direito a ..

fugidia disse...

Ser estranho, o ser humano: capaz do mais extraordinário e do horror, até com os seus. Sobretudo com os seus...

Rudolfo Moreira disse...

Entre irmãos chegou a ser obrigatório na realeza do Egipto.

MySelf disse...

Má nada!

marta disse...

Querido Paulo


Castrar com certeza, matar...

Nisto estamos quase sempre em desacordo,não total apesar de tudo.

Como lei não quero a pena de morte.
Mas se tivesse sido com uma filha minha, tenho a certeza que o matava.
Não tenho qualquer dúvida.


beijinho

cristina ribeiro disse...

Pois, estou como a Marta: teoricamente sou totalmente contra a pena de morte: aliás, aquando do enforcamento de Sadam, entendi que o maior dos castigos seria a prisão perpétua, em cadeia de altíssima segurança, mas, a quente, não sei como reagiria se alguém fizesse um tal mal a alguém querido...
Beijo

the_hammer disse...

Plenamente de acordo: sou totalmente favorável à castração em caso de violação, e de todo em todo defensor da pena capital em casos de traição à Pátria ou - como na presente situação - homicídio premeditado de um inocente. Não podia ter, passe a brincadeira, mais afinidade com este post.

Luísa disse...

Acho extraordinário, caro Réprobo, como é que situações deste tipo podem manter-se tantos anos no segredo. Só nesses países frios do Norte. Com as práticas de «boa vizinhança» que temos no Sul, não perdurariam, certamente, mais do que um dia. :-)

O Réprobo disse...

Uf! Diazinho movimentado.
Vamos então às respostas:
Muito obrigado por prezar a pobre forma deste maldito, Querida Once, embora a expressão que refere seja um tanto crispada. Mas o caso requeria-o e, como, infelizmente, é mais vulgar do que deveria, exige de nós uma tentativa de fuga, pelos meios que empreguemos.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
e depois não quer que eu seja pessimista quanto à Espécie? Claro que nem toda a gente é assim, mas não somos apenas compostos pelos meus Amigos. E há muito mais a detestar, apesar de grau menos repulsivo, admito-o.
Beijinho

O Réprobo disse...

Meu Caro Rudolfo Moreira,
é certo. Mas mesmo aí participava da excepcionalidade, não era prescrito à comunidade em geral.
Abraço

O Réprobo disse...

Querida MySelf,
são indivíduos destes que podem despertar a justa indignação das gentes, e fazer-nos um pouco melhores pela rejeição deles.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Marta,
pois, apesar de compreender, o que me parece inaceitável é a justiça por mãos próprias. E não vejo que comunidade merece que nos orgulhemos de lhe pertencer, se insiste em tratar como humanos indivíduos que, pela sua acção livre, se mostraram da desumanidade mais extrema.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
pois também no caso de Saddam achei muito bem que o despachassem, reconhecendo que, como em qualquer caso político de substituição conturbada de regimes, não teve juízes imparciais.
Mas achei mal, por ter sido militar e porque creio que um País não se honra em tratar um ex-chefe de Estado como criminoso COMUM, que lhe não tivessem atendido o pedido de ser fuzilado.
Beijo

O Réprobo disse...

Caro The Hammer,
ainda bem que somos bastantes a ter um tal nível de susceptibilidade perante desgraças destas.
Volte sempre

O Réprobo disse...

Querida Luísa,
tem toda a razão, em linguagem mais chã, a cusquice tem du bon!
Embora abusos sexuais de filhas pelos pais também se dêem bem com o calor, falamos apenas da ocultação, claro.
Beijinho

av disse...

Nós, "suprema espécie inteligente", somos afinal lobos sob a pele de cordeiros. Este caso, como alguns outros da mesmo género, ainda me repugna de tal maneira que não consigo pronunciar-me sobre ele. Apesar de lhe encontrar muitas incongruências, que me suscitam outras tantas perguntas.
Mas a pena de morte NÃO, em nenhum caso. Não somos Deuses, para dispor da vida dos outros, mesmo que esses outros sejam monstros. Se os matarmos, não seremos melhores do que eles.
(Claro que também eu mataria com as minhas mãos, provavelmente, para defender ou salvar um dos meus, mas isso é outra coisa. As leis têm que ser feitas e aplicadas sem emoções à mistura).
Beijinho

O Réprobo disse...

Eu sou favorável à pena de morte para crimes de homicídio qualificado. E a horrores destes não me repugna estendê-la, até em razão da suspeitíssima morte de um dos filhos, confirmando-se a responsailidade do indivíduo.
Não somos iguais, porque não há igualdade possível entre matar um inocente ou aliviar a Sociedade de um culpado em extremo, que infinitas execuções, a serem possíveis, deixariam ainda devedor.
Beijinho

av disse...

Bem sei, Paulo. Não é exactamente a mesma coisa, porque um é inocente e o outro não. Mas... e se for? Já pensou no horror da responsabilidade de ter mandado para a morte um acusado que se descubra mais tarde inocente, quando não há já remédio? Bastaria essa possibilidade, mesmo remota, para eu ser contra a pena de morte, mas sou-o também em relação aos culpados confessos. É o que eu acho, meu amigo: não somos deuses, somos humanos. Os nossos julgamentos não são infalíveis e, além disso, penso que não temos o direito de tirar a vida. Mesmo aos que cometeram esse crime.

Beijinho, a divergência de opiniões é saudável.

O Réprobo disse...

Querida Ana, claro que é. E concordo com a ideia de não sermos Deuses, mas isso significa que não devemos querer ter em nosso poder a vida de inocentes. Agora, todos devemos assumir a condição de juízes e, até por dever para com os assassinados, não hesitar em eliminar os criminosos mais repugnantes. Quem foi tão desumano provou não pertencer à Espécie.

Claro que um erro judiciário é sempre o horror supremo. Mas não se pode cobstruir um sistema penal, pensando-o como regra. E vai dizer-me, erro por erro, se não é melhor liquidar de vez a questão, do que encarcerar um inocente uma vida inteira, ou nas melhores décadas dela. Se se enganarem alguma vez comigo, despachem-me logo, por favor.
Beijinho