domingo, 20 de abril de 2008

Maurras e o Tempo Dele

Mais um ano passado sobre o dia do nascimento de Maurras, a quem haverá sobretudo a reprovar o não ter sabido ser suficientemente maurrasiano. Desde logo por não ter conseguido manter a sua aversão ao conceito Romântico da Nação. Havendo doutrinado tantos jovens sobre a necessidade de fazer recuar o Nacionalismo às origens, a Bodin, com a significação profunda da aliança entre Rei e Povo - a primeira Frente Popular, lhe chamou -, contra os interesses particularistas e de facção, deixou-se cair na armadilha anti-dreyfusard de ver na condenação um julgamento nacional, expressando um sentir colectivo que era o sentimentalismo de apenas uma metade da França. Foi precisamente a persistência de querer ter diante dos olhos o significado genérico, antes do julgamento individual com a aplicação prevista das audiências e recursos, que traiu o mecanismo de segurança tradicional que sempre havia exemplarmente defendido. Assim como, invocando o valor aglutinador do Rei e o civilizador da Igreja contra os partidos e facções, se deixou escorregar para o conflito com o Herdeiro da Coroa, ou para a luta pela condenação da irritante Democracia Cristã de Sangnier, transformando-se em chefe partidário e no alvo de todos os ódios clericais que conduziram a uma marginalização descoroçoante e terrível para o seu combate.
Como, no fim, partindo da justa posição da solidez do Seu País na solidão num conflito mundial em que já não contava como força de primeira grandeza, deixando-se cair no que esse Pétain a que sempre continuou fidelíssimo evitou totalmente: transigir em que a aversão aos Britânicos se equiparasse à animadversão alimentada para com a Alemanha, ao ponto de o próprio interesse e posição da sua Pátria passarem para um plano de atrofia.
No fundo, algumas das suas qualidades, a fidelidade à outrance a amizades e aversões foram a grande limitação que o condicionou, na medida em que impediram a coerência da acção com os fundamentos teóricos de um pensamento poderosíssimo, o qual sempre tivera como fim a promoção da paz e coesão interiores e o poderio afirmativo (embora não-expansionista) na Política Externa.

2 comentários:

José Carlos disse...

Obrigado pelo belo postal de homenagem ao Homem que eu tanto estudei (primeiro por influência paterna e da minha francesa avó, depois por vontade própria. Garanto que o meditei muito, e que ainda hoje - como teorizador da contra-revolução - me merece (sempre que possível) uma visita que é sempre enriquecedora e esclarecedora.

Pensava que já ninguém o recordava. Ainda bem que (mais uma vez) me enganei.
José Carlos

O Réprobo disse...

Meu Caro José Carlos,
não creio que haja maior teorizador politico com produção no Século XX. Uma obra de construção extraordinária, na tentativa de devolver a todos a reconciliação com o que os formou, bem com a impermeabilidade às convulsões das ideias fragmentárias e mesmo atomistas que, momentaneamente, vingaram, fazendo decair o Homem a um pálido decalque, de que se evidencia apenas o materialismo e a perturbação.
Circunstâncias, generosidade no combate e uma postura pouco dúctil no dia-a-dia, ancoradas na razão da sua percepção, levaram-no a um limbo de que a qualidade da obra fatalmente o fará sair.
Forte abraço maurrasiano