quarta-feira, 9 de abril de 2008

Sem Anos de Solidão

Fiquei ciente de um cento de anos que me é tudo menos indiferente, graças ao Meu Muito Caro João Villalobos. Não me sentindo com estatura religiosa ou capacidade crítica para comentar uma revelação como a aniversariante, «O Homem Que era Quinta-Feira», cinjo-me a deixar-Vos umas linhas sobre a minha vida em redor desse pequeno grande livro.
Entre os 17 e os 20 anos tinha perdido a Fé em Cristo, com a dor de não ter prescindido de um Deus da Criação. Revoltado contra a esterilidade de um curso de Direito demasiado arredio do sonho da Justiça absoluta, não concebia o Sofrimento Divino. Tinha passado a odiar-me o suficiente para detestar o Amor como uma fraqueza, fosse o da Redenção, ou o da pureza pessoal. Demasiado orgulhoso para me deixar cair em drogas ou grupos, passei a jogar-me nas leituras e nas cargas e descargas mais duvidosas que as noites e o sórdido me ofereciam.
Até que li e pensei este livrinho. Uma história policial, decerto, mas em que era um Polícia que vinha a ser apanhado. Sem a ter conhecido, também eu me apaixonei pela Rapariga do cabelo castanho-dourado que o detective-poeta Gabriel Syme encontra ao fim da caminhada, a irmã desse Lucian Gregory que se fazia muito mais inadaptado do que a Rectidão lhe permitia.
G.K. Chesterton, o Autor, tinha, numa entrevista, revelado o segredo escancarado que o guiara: em vez de fazer uma ficção em que alguém cheio de qualidades aparentes fosse culpado de crimes horríveis, contar a descoberta de um Ente Suspeito a que fosse atribuível Bondade.
Era Domingo.
Noutro escrito, por mim mencionado em ensaio medíocre que me atrevi a publicar, o Grande Escritor explica em que sentido a Divindade pode ser vista como Anarquista, coisa que caiu que nem ginjas na ebulição que vivia contra as ordens e (in)justiças que me rodeavam. Mais tarde soube também por ele que a Democracia que importa é a dos Mortos, a ligação ao Que permanece, não às maiorias actuais, mutantes e periódicas cuja face horrenda é a voragem das substituições e do esquecimento.
Mas voltemos a Domingo, no gigantismo e Mistério benignos com que surgia aos personagens, fez-me passar a gostar da Polícia, abstractamente idealizada como a que não desistia da Procura e assim conferia a capacidade de agarrar o Que não procurava fugir e pousava mesmo junto a nós, ainda que momentaneamente inconstatado. Estava pronto a reciclar-me, de modo a, se não amar exemplarmente, ao menos exemplarmente passar a prezar o Amor. Nos dois grandes sentidos que rivalizam com o que se acrescenta por um hífen do adjectivo próprio.
Numa atrocidade apressada, algumas traduções portuguesas não incluem o subtítulo da obra, Um Pesadelo. Para mim a intuição dele impôs-se logo. Mas para me reconciliar com um muito maior, que é a Vida.

17 comentários:

Rosarinho disse...

Querido R. (passarei a usar esta abreviatura para evitar os engulhos que o seu nome me causa. espero que não se importe),

Deve mesmo ter passado uma fase terrível, entre os seus 17-20! De uma assentada dois pecados mortais: descrer em Cristo e parecer-lhe estéril o curso de Direito...

Vejo, com gosto, que tudo isso passou, e que voltou a andar de bem com a vida.

O Réprobo disse...

Querida Rosarinho,
pode sempre chamar-me Paulo... Agradeço a relutância em considerar-me maldito.

Nem sabe a missa a metade! Quanto ao Direito, não lhe vi obnubilada a aridez. Despachei os cinco anitos obrigatórios e tudo o que vejo confirma a má opinião que fiz dele.
No Mais, metamorfoseei-me, sim, guardando uma reserva de Pessimismo para a defesa pessoal, não já para a agressão.
Beijinho

fugidia disse...

Rosarinho :-)

Caro Réprobo (:-p - esta língua é para a Rosarinho): :-)

O Réprobo disse...

Pronto, pronto, não me intrometo!
Beijinhos a Ambas

RAA disse...

Qual medíocre, qual quê!... Um verdadeiro clássico!
Ab.

cristina ribeiro disse...

Fases de desânimo pelas quais todos passamos (pelo menos eu passei), mas nem todos temos a sorte de chegar a bom Porto... :)
Beijo

av disse...

Impressionante confissão, Paulo, e exemplarmente contada. Concordo com a Cristina: todos passamos por fases de dúvida e revolta, que, se não nos afundarem de vez, são até muito úteis para o crescimento. É bonito poder atribuir a salvação (ou, pelo menos, o afastar das brumas) a um livro, e só prova como eles são importantes na nossa vida. Foi talvez por isso - por gratidão a um deles - que passou a dar abrigo a alguns milhares dos seus irmãos... quem sabe?
Um beijinho

av disse...

Esqueci-me de elogiar o trocadilho do título, que também é óptimo!

Once In a While disse...

falta um "ser" ali nos atalhos (brincando .. ) o seu SER assim simplesmente confessado em letras cheias de significado.
Vou-me repetir que eu sei .. mas gostei muito de ler.

O Réprobo disse...

Meu Caro RAA,
quando aos Olhos de Amigo adicionas os de Generoso Editor...
Abraço

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
não sei se porto de águas profundas ou mero cais piscatório arruinado. Mas claro que me sinto melhor do que era antes de GKC ter sobre mim influído.
Beijo

fugidia disse...

Querido Réprobo,
a minha "língua de fora" para a Rosarinha deveu-se apenas ao facto de eu o continuar a tratar por "Réprobo", apesar do que ela disse :-)

O meu sorriso para si deve-se ao facto de ter gostado deste post e da forma como nele se expôs.
Um beijinho.

O Réprobo disse...

Querida Ana,
já tinha sido contagiado pela doença, mas é bem possível que esta leitura tenha agravado o mal...
Os livros já me haviam salvo antes, num sentido mais físico - quando pelos treze anos senti a tentação do suiicídio, como muitos rapazes e menos, mas mais perigosamente as Meninas, foi a noção de que ainda havia muitos volumes que queria ler que me manteve por cá.
Obrigado pela aprovação e pela nota do título. Ambas o justificaram plenissimamente.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Once,
obrigadíssimo por vislumbrar Ser num escrito que meramente exprime o meu estar. Mas bem sei que a Minha Amiga tem formação anglo-saxónica, em que as formas verbais correspondentes se indiferenciam...
Beijinho, agradar-Lhe é sempre sintoma de que o que escrevemos não terá falhado.

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
Vejo ambas as atitudes como de simpatia por um bloguista maltrapilho. A da Rosarinho por relutância em ver-me condenado. A da Fugidia, por aquiescência com o nick escolhido, quer dizer, para com esta pequena parcela de criação. Nas línguas de fora que Ambas reciprocamente Se deitem ouso ver uma réstia de estima por este sujeito que não merece tanto.
Beijinho

João Villalobos disse...

Esse ensaio ainda o guardo bem guardadinho. Abraço grande

O Réprobo disse...

Meu Caro João,
é grande caridade não lhe teres dado o rumo da lixeira.
Abraço