domingo, 27 de abril de 2008

O Ingrediente dos Apertos

A Mão Verde de Michel OgierSenhores, o que eu gosto de Ivan Junqueira! Muito do meu culto por T. S. Eliot se deve a ele, que para mim é Autor das melhores traduções eliotianas para o Português, nunca me tendo atrapalhado qualquer diferença da ortografia em desacordo...
Mas também a criação pseudo-desvinculada que é o estro, como se pode ver neste poema.
A mão, a que escreve, é tudo isso e muito mais, porque, se passível de ser acusada de dissipação em ninharias, erros e desvios de uma linha fundamental, o certo é que veio também, verdejante de esperança, cortar a divisória que impunha o luto pela realidade, conferindo a explosão orgiástica de cor e esplendor da atracção dos corpos ainda pouco gastos. Toda a sua insuficiência a condenaria a escrever torto por linhas direitas, se considerada numa solitária medida. Porém, ao grangear olhos que lhe leiam o labor, como ao celebrar um Belo alheio, atinge a redenção que a aceitação espiritual faculta, centrando-se no desinteresse dos cultos de um egoísmo que, porque compartilhado, se bane - o do reconhecimento estético. É a adesão admirativa que reitera necessitar a dimensão salvífica sempre de Alguém que se sacrifique por nós.
Oiçamos o Grande Poeta Brasileiro


A MÃO QUE ESCREVE

A mão que escreve é aquela
que não pôde, inepta,
agarrar o que lhe era
devido nesta gleba:
glória, insígnias, troféus
e algo enfim que soubesse
àquilo a que, incrédulos,
chamamos vida eterna.

A mão que escreve é aquela
cujas linhas, babélicas,
descumpriam o périplo
que lhes previa a esfera
de um trismegístico Hermes,
e que, por dolo e inércia,
deixou perder-se a pérola
que arrancara do pélago.

A mão que escreve é aquela
que foi, além de réproba
e amiúde analfabeta,
muitas vezes canhestra:
urdiu frases sem nexo,
bateu-se em tolos duelos
e excedeu-se, sem rédeas.

A mão que escreve é aquela
que compôs alguns versos,
odes, canções de gesta
e elegias sem metro,
às quais ninguém deu crédito
nem ouvidos. Aquela
que ergueu um brinde aos féretros
de uma insepulta Grécia.

8 comentários:

fugidia disse...

É bonito o poema, sim.
Apesar da penúltima estrofe....
:-p

:-)))

O Réprobo disse...

É o Deve e o Haver, Querida Fugidia. Então esses banhos de Sol?
Beijinho

fugidia disse...

Vou agora, Senhor: tenho de esperar que passe a pior hora e ir bem protegida de cremes :-)

O Réprobo disse...

Take care & have fun!
Bjinho

av disse...

Gosto da sua associação da "mão que escreve" (o Bardo?) à cor verde, Paulo: a comunhão com a natureza, a esperança, a ligação ao que é simples e essencial, o desprendimento, o altruísmo.
E o poema é muito bonito, sem dúvida.
Beijinho

O Réprobo disse...

Ainda bem que gostou, Querida Ana. Tinha, confesso-o magicado se Lhe agradaria, com toda a exigência do Seu re-conhecido Background Poético. Penso que não é apenas digno, plasticamente falando; mas encerra um hino a toda a tentativa bem intencionada que tenha o mérito de ousar, para além das limitações.
Beijo

Júlia Moura Lopes disse...

Tambem gosto de Ivan Junqueira. É o poeta do pensamento.

conhece aquele poeminha "elegia Intima"?
tão lindo! vou postá-lo amanhã.

beijinho

O Réprobo disse...

Obrigadíssimo, Querida Júlia. Fico ansioso! Gostava muito de conhecê-lo.
Beijinho