segunda-feira, 21 de abril de 2008

Inteligência de Facto

Leitura de um esforçado ensaio de Fidelino de Figueiredo, «Memorialismo e Voluntarismo», em que tenta imputar os males pátrios à alegada incapacidade de formular uma ideia mobilizadora da acção, por o espírito nacional ser pretensamente atreito a atentar simplesmente no já acontecido:
Saber é lembrar-se, como recordar é viver, no provérbio mais aliteratado. O bom conversador - tipo muito nacional - é o homem que conta bem, que recorda, que descobre antecedentes e se deleita no anedótico e no episódico.
E remetendo para texto de João Chagas, em nota reproduzido:
A inteligência dos portugueses, de resto, não se traduz em ideias. Quando pretendem exprimir uma ideia, contam um facto.
A tese parece ser uma alusão mais à deficitária especulação filosófica lusa. Mas será isto um mal? Nietzsche disse nalgum lugar que as convicções serão mais nocivas para a Verdade do que as mentiras. E parece indiscutível que a deformação da preconcebida visão que procure na observação e no estudo a mera reiteração do pendor em que se mergulhou é bastante mais perigosa do que o vício apontado.

Se não me hipoteco, ponto por ponto, à visão agregadora que Oakeshott deu, a partir de uma leitura de Burke, de todo um Pensamento Conservador, com a aproximação de teorias difíceis de conciliar, estou, todavia, plenamente de acordo com o alerta que dele se extrai para os perigos das ideias gerais programáticas na informação das acções governativas, ao arrepio da Experiência e Adquirido dos Povos.
Mas o que poderia ser uma salvaguarda nacional contra essa ameaça, caso a presunção de Fidelino seja correcta, é completamente neutralizado pela sede de imitação que sempre tem marcado a nossa Vida Política e Intelectual. Em vez de formular os grandes quadros mentais sistemáticos que abalam as vidas noutras Nações, importamo-las inteirinhas, pelo prestígio de as crermos novas e, se calhar, pior ainda, pelo estigma de não nos supormos capazes de (melhores) ideias. É a abstenção de joeirar que prescinde da peneira que separe o que não presta, para se rodear das peneiras de fazer como nos locais civilizados. Ontem o que era chic, hoje o que está in, só mudou a língua dominante.

Por uma coincidência que reputo significativa, faz hoje anos que Jean-Jacques Rousseau abjurou o Protestantismo, em 1728. Abandonou assim a intransigência do Calvinismo da Sua Genebra, onde a Predestinação fazia de cada indivíduo um suspeito de perdição, teorizando em seu lugar a bondade natural de um homem que nunca alguém viu. Do hiperjulgamento condenatório que torna a vida insuportável, na minha óptica, passou à absolvição apriorística que transforma a existência num regabofe ético que repugnará a qualquer mentalidade exigente. Mas por que caiu ele nisto? Por não apenas prescindir dos factos, como expressamente enuncia em «O Contrato Social», mas por ter igualmente afastado a consequência das ideias, porém as gerais, as duas grandes enformadoras que se ofereciam para o recolher, se não heterodoxamente entrado na nova Religião - as de Bem e Mal como possibilidades de cada indivíduo e a irresponsabilidade do juízo sobre a Humanidade como entidade colectiva, fora da acção de cada um dos seus membros.
E assim, percorridos os riscos que a abstracção e o concreto, isolados um do outro, representam para qualquer norteação afirmativa, podemos encontrar um sentido útil para a crítica do nosso Autor: um dos traços mais incontestáveis dos nossos patrícios é a cedência que essas grandes ideações morais protagonizam em muitos casos, perante a atenção aos acontecimentozinhos que os rodeiam: vendo como os que fazem trinta por uma linha se safam muita bem, cada desiludido pensa que deve deixar de ser tanso, pôr de parte as lérias em que tinha acreditado e fazer outro tanto.
E nesta capitulação ganha plena acuidade o título do livro de onde se colheu a reflexão que originou este postal.

10 comentários:

fugidia disse...

Muito interessantes as suas reflexões.
Não conheço o Fidelino de Figueiredo (o meu pai era muito mais próximo - quer em termos pessoais quer de ideias - do Veira de Almeida) e acho que é muito pouco conhecido.
É nestas alturas que sinto a falta de lhe telefonar e fazer-lhe perguntas...

Boa noite, caro Réprobo.

O Réprobo disse...

Obrigado, Querida Fugidia, Vieira de Almeida é-me caro, até por ter gravitado em torno de mestres meus, do Integralismo Lusitano.

Eu para telefones sou complicado, mas há sempre o e-mail como recurso. Presumindo, cheio de água benta equiparável, que alguma resposta minha pudesse ser de préstimo...
Beijinho

cristina ribeiro disse...

Paulo, já lhe tinha dito que textos destes me prendem aqui de pedra e cal, pois já?
Devorei este com um prazer enorme...
Beijo

fugidia disse...

Querido Réprobo,
não fui muito clara mas referia-me ao meu pai! :-) e apenas porque ele "era do tempo" e teria imensas histórias para me contar :-)
Mas saiba que tenho a certeza que V. me saberia dar respostas com muito mais do que apenas préstimo! Não hesitarei em usar o mail para isso, obrigada!
:-)
Um beijinho de bom dia.

João Távora disse...

Mandei-te um e-mail. Se puderes responde-me.

Once In a While disse...

Convenhamos, caro Amigo, que se a convicção não for forte, o principio e a honestidade pela qual o individuo se pauta, mais aquela que deve a si mesmo do que propriamente aos outros, será fácil cair em tentação e exemplos para isso .. não nos faltam.

Sempre a aprender por aqui .. grata por mais este brilhante postal :)

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
é Bondade demasiada, a Sua! E exige resposta postada, já a seguir.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
sempre às ordens! Não hesite!
Beijinho

O Réprobo disse...

Já respondi, Meu Caro João.
Um abraço

O Réprobo disse...

Por isso, Querida Once, salientei a ambivalência do papel possível delas - o deformador e o de respeito pelo Vero e Correcto.
No resto, pura amabilidade da Minha Querida Amiga.
Beijinho