sábado, 12 de abril de 2008

Mas?

Findo o jantar, não me saía da cabeça a mais enigmática adversativa que conheço: William Morris, depois de tentar dar as feições da Mulher, Jane Burden, à Rainha Genebra, do ciclo da Távola Redonda, terá dolorosamente desistido, escrevendo na parte posterior da tela: Não consigo pintar-te, mas amo-te!
É este mas que eu contesto. Perceber-se-ia, se aplicado a uma impotência que recusasse a cosumação em acto da intensidade do sentimento nutrido. Agora, por não o satisfazer o resultado do retrato dela? Dir-me-ão que para um artista sensível, não conseguir dar seguimento ao sonho de contar a Amada entre as Musas é não pequeno sofrimento. E eu respondo que me parece todas as dificuldades entre eles terem nascido das profissões de ambos.

Não no sentido em que hoje é comum, com o cansaço a estimular a irritabilidade dentro do conúbio, ou com as exigências do trabalho a concorrerem com as prestações de cada casal. Antes porque penso que no respeitante à consorte, o métier morrisiano não era o de pintor ou designer, nem sequer escritor, que eram os que declarava na vida civil, sendo-o, ao invés, o de escultor. Com efeito, antes de casar com ela, moldou-a, qual nova Galateia, com o adestramento nas várias matérias da ascensão social, da Etiqueta à Literatura, dos idiomas estrangeiros ao piano. E com êxito.
No que a ela toca, revelou-se profética a pintura na pele dessa Guinevere escapando do Himeneu com um íntimo do Marido, Dante Gabriel Rossetti, tal como a medieval caíra nos braços do melhor amigo do marido, Lancelote do Lago. E porquê? E para quê? Modelo que fora, para ser pintada e amada por ele, como efectivamente foi, parece que abundantemente.
Morris, se foi bem sucedido em criar uma nova mulher, revelou-se incapaz de satisfazer as vontades que nela semeara. São célebres as distracções de poeta que frustraram muitos pequenos projectos da vida em comum, como aquela em que procurou satisfazer-lhe o desejo de uma temporada termal em Baden-Baden, tomando caprichadamente todas as medidas necessárias, com a pequena excepção de fazer as reservas do hotel...
Mas ela não compreendeu - ou não quis compreender - aquilo em que coincidiram na percepção as Mulheres que li e As Que conheci: que um homem distrair-se em face Delas é sinal seguro de que o perturbam.
Estavam reunidos os condimentos para um Pigmaleão que não acabasse bem. Burden, apelido de solteira, significa tanto fardo como ónus. Qualquer dos sentidos era mau presságio.

12 comentários:

cristina ribeiro disse...

Antes do mais, Paulo, tenho de dizer que continuo a aprender muito por aqui...; nada sabia sobre as pessoas faladas no postal, mas achei a história tão apelativa que me fui inteirar.
Quanto ao cerne da questão, não me parece tão linear que essas distracções tenham sempre o mesmo significado: terá, talvez, no caso presente, mas conto-o como uma das excepções...
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
William Morris, como Ruskin, como Burne-Jones, os Rossetti e outros Pré-Rafaelitas são gente importante para mim. Lembra-Se, no Misantropo, de muitos quadros subordinados à estética do grupo?
Quanto ao segundo ponto, debatamos. Mas creio que estamos a partir de diferentes concepções de "distracção".
Beijo

cristina ribeiro disse...

Paulo, eu cheguei tarde à blogosfera, e conheci o "Misantropo" já numa fase tardia.
Quanto à distracção que tenho em mente, admito que seja mais terra-a-terra, prosaica por demasiado evidente e ostensiva.
Beijo

fugidia disse...

Caro Réprobo, dois pontos.
O primeiro: o "mas". Se ela se mostrasse desconsolada porque as suas feições não estavam bem retratadas, parece-me muito compreensível o "mas" dele que, ao fim ao cabo, não tem o significado menor que pode parecer à primeira vista.
O segundo: sinto-me mais do lado da Cristina Ribeiro, sobretudo tendo em conta o exemplo que deu: não me parece um bom exemplo para uma "distracção" reveladora de perturbação. Essas existem, claro, são muito divertidas e, sobretudo, deixam qualquer mulher encantada. Esta revela o que noto em muitos "artistas": fixam-se nos pormenores e o importante perde-se...
Dou-lhe um exemplo: ficar no aeroporto à espera, à chuva, quase duas horas, numa altura em que não havia telemóveis e quando tinha avisado e confirmado a hora de chegada, porque quem ficou de me ir buscar achou que eu ia delirar com a casa cheia de rosas, e esteve as duas horas a espalhá-las artisticamente pelas várias divisões...
Mais um beijinho (e volto para ler a sua resposta...) ;-)

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
bem, o velho blogue ainda está lá. Se digitar na janelinha algum dos nomes que citei, verá que não aldrabei.
Claro que há distracções e distracções.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
mas aí está, essa era, mesmo que injustamente, passível de ser assimilada a desinteresse! Agora, o pobre do W. M., com tanto trabalho a comprar as roupas e bagagens neessárias, os bilhetes de barco e comboio, pôr as obrigações em dia para gozar as férias... não será impiedoso acusá-lo do mesmo?
Beijinho

fugidia disse...

Foi?
Hum... e teve muito trabalho e gastou muitas horas?
Hum... nesse caso não teria sido antes cansaço, em vez de perturbação???
:-D

O Réprobo disse...

Pois foi, Querida Fugidia...
Mas como esta houve outras. E se é verdade que ele trabalhava muito, a exaustão em estado permanente...
Beijinho

av disse...

Meus queridos amigos, estou com o Paulo. As "distracções" são a minha própria pecha e acontecem-me frequentemente, sem que eu possa evitá-lo. E não significam, quase nunca, desinteresse ou indiferença. Sofro com isso, e por isso tenho que defender os meus pares da injustiça que nos fazem, ao considerá-las propositadas ou resultantes de negligência.
E, querida Fugidia, se alguém me fizesse esperar no aeroporto para me receber com a casa cheia de flores, eu perdoava-lhe tudo no mesmo instante, mesmo que estivesse encharcada! Talvez porque me veja a fazer a mesma coisa a alguém, com o maior gosto e empenhamento, e esquecendo-me completamente das horas...
beijos

fugidia disse...

Querida AV,
eu fiquei pior que ursa!
Deus dá nozes a quem não tem dentes, de facto!!!
Um beijinho para si.
:-)

O Réprobo disse...

Querida Ana,
Estou mesmo a ver William Morris sorrir lá de onde esteja, coisa que não era assim tão frequente na passagem dele por cá...
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Piursinha Fugidia,
não diga tanto, os dentes servem também para sorrir, não só para triturar. E a vantagem é que quem não os tenha pode conseguir o mesmo efeito rindo com os olhos, enquanto que se procurar comer apenas com eles está bem arranjado...
Beijinho